ERC arquiva queixa de Arons de Carvalho sobre CGI da RTP

ERC arquiva queixa de Arons de Carvalho sobre CGI da RTP

Há decisões que, mesmo quando parecem técnicas, acabam por dizer muito sobre o país em que vivemos. O arquivamento de uma queixa sobre o uso de CGI na RTP pode, à primeira vista, soar como um tema lateral: um detalhe de produção, um recurso visual, uma escolha de linguagem. Mas a verdade é que não estamos apenas a discutir efeitos especiais. Estamos a discutir confiança, responsabilidade pública e a forma como a informação e a comunicação social devem ser reguladas num tempo em que o “parece real” pode ser rapidamente confundido com o “é real”.

Em Portugal, a comunicação social tem uma função particularmente sensível porque serve públicos que vão além do entretenimento: serve informação, memória coletiva e debate cívico. Quando falamos da ERC e do papel que tem, falamos de garantias. E quando uma queixa é arquivada, é legítimo que os cidadãos se interroguem: o que é exigível, o que é tolerável e onde começa a linha que separa criação visual e manipulação percetível, ainda que indireta.

O tema importa porque a imagem, hoje, raramente é inocente. CGI, substituições visuais, reconstruções e animações são ferramentas poderosas. Podem esclarecer, contextualizar e ajudar a explicar o que de outra forma seria difícil de compreender. Mas também podem criar impressões que não correspondem ao mesmo rigor de um registo documental. Mesmo quando a intenção não é enganar, o efeito pode ser o mesmo: o público recebe uma representação e assume que aquilo é, de algum modo, uma evidência. E, num ecossistema mediático acelerado, essa perceção pode ser duradoura.

Por isso, a discussão não é sobre tecnologia, mas sobre limites e transparência. O uso de CGI não é, por si só, um problema. O problema surge quando se perde a clareza sobre o que é reconstrução, simulação ou representação artística. Em conteúdos informativos, a diferença entre “mostramos” e “recriamos” tem de ser comunicada com cuidado. Caso contrário, corremos o risco de rebaixar o estatuto da informação: o que deveria ser comprovável passa a ser apenas convincente.

O que está em causa quando se fala de CGI na televisão pública

Uma televisão pública não é apenas um canal. É uma instituição com deveres próprios, nomeadamente quanto à fiabilidade e ao impacto social das escolhas editoriais. O CGI pode ser um recurso legítimo para tornar visível algo complexo, especialmente quando há necessidade de contextualização. Em muitos casos, uma animação ajuda o público a compreender escalas, relações espaciais ou processos que não são observáveis no momento em que a notícia é feita.

Mas a mesma ferramenta pode ser usada, consciente ou inconscientemente, para dramatizar. Quando o guião e o grafismo caminham em conjunto, o resultado pode aproximar-se mais de uma narrativa emocional do que de uma explicação sustentada. A crítica que costuma surgir neste tipo de matérias, em geral, não se prende com a existência de efeitos visuais; prende-se com a forma como a visualização é enquadrada perante o público, e com a eventual ausência de sinais claros de que se está perante uma reconstrução ou simulação.

Este ponto é decisivo num país onde muitos cidadãos já sentem dificuldade em distinguir entre informação, opinião e conteúdo produzido para persuadir. Se o regulador arquiva a queixa, isso pode significar que, na interpretação jurídica e regulatória, não se verificou fundamento suficiente para prosseguir. No entanto, o arquivamento não elimina a pergunta essencial: o público foi devidamente servido com transparência? A representação respeitou a fronteira entre o que é factual e o que é reconstruído? E, sobretudo, a RTP, enquanto serviço público, garante que o espectador não é induzido a tomar o “como se fosse” pelo “é assim”?

Por que razão este assunto preocupa Portugal

Há uma dimensão cultural e democrática que não deve ser negligenciada. Portugal vive um tempo em que a confiança nas instituições é frequentemente testada, não por debates abstratos, mas por experiências concretas: o sentimento de que “nos estão a contar uma história” e não “a explicar a realidade”.

Quando se discute CGI, o que está em causa é, em última análise, a relação entre a televisão e o cidadão. A televisão pública, por definição, deveria ser um polo de referência. Se o cidadão sente que o que vê pode ser facilmente manipulado pela estética, essa sensação repercute-se muito para além do episódio em causa. Repercute-se na forma como se acredita, no que se procura confirmar e no grau de suspeita com que se recebe qualquer representação visual futura.

Além disso, há um fator de responsabilidade pedagógica. Uma parte relevante da população aprende, por via televisiva, como o mundo funciona. Quando a imagem é tecnologicamente sofisticada, ela tem um efeito de autoridade. E a autoridade visual pode mascarar incertezas. Se o regulador entendeu que não houve violação relevante, isso não impede que o setor de comunicação social retire lições para o futuro: informar com rigor visual é, hoje, um requisito básico.

A linha entre esclarecer e persuadir

Um dos desafios contemporâneos é a fronteira cada vez mais ténue entre esclarecer e persuadir. A persuasão não é necessariamente negativa; toda a comunicação tem elementos retóricos. O problema surge quando a persuasão se baseia em algo que o público não sabe que está a receber como construção.

A CGI pode esclarecer de forma excelente, mas para isso é preciso que o formato seja honesto: identificar quando se está a recriar, distinguir claramente o que corresponde a dados objetivos do que corresponde a visualização aproximada, e manter coerência entre o tom do texto e a natureza da imagem. Se a narrativa sonora dá a entender certeza absoluta enquanto a imagem é, na realidade, uma simulação, o público fica mais exposto à interpretação errada.

Mesmo quando tudo está “tecnicamente” correto, a perceção pode não estar. A pergunta que deveria guiar qualquer avaliação pública é: um espectador médio, sem acesso ao bastidor, consegue perceber a natureza do que está a ver? A resposta deve ser simples, quase intuitiva. Se não for, então não é apenas uma questão de regra; é uma questão de responsabilidade social.

O papel do regulador: decisivo, mas não suficiente

É importante reconhecer o papel da ERC como entidade com responsabilidade de enquadrar e fiscalizar. O arquivamento pode refletir uma leitura específica do que foi pedido, do que foi demonstrado e do que é exigível. Porém, a regulação não termina no despacho. A regulação é também prevenção e aprendizagem institucional.

Por vezes, o arquivamento é interpretado como um “assunto encerrado”. Mas, em matérias que tocam a credibilidade pública, o “assunto encerrado” deveria significar, pelo menos, que fica a recomendação de melhorar práticas. O que deve permanecer é uma cultura de transparência, de sinalização clara das reconstruções e de cuidado editorial reforçado quando se recorre a ferramentas que podem simular realidade.

Há também um aspeto metodológico: em conflitos desta natureza, muitas vezes a discussão pública fica presa ao detalhe do que aconteceu num momento específico. Mas o que Portugal precisa é de princípios estáveis. Mesmo que o caso concreto não tenha sustentação suficiente para avançar, o debate sobre critérios deve continuar. E esses critérios deveriam orientar, no futuro, como as equipas editoriais e gráficas comunicam com o público.

Transparência visual: um dever cívico

Uma questão central, para além da decisão de arquivar, é como se organiza a transparência visual. Não se trata de tornar cada animação numa aula técnica. Trata-se, isso sim, de garantir que o espectador sabe o suficiente para interpretar corretamente. A clareza pode ser conseguida por elementos simples: sinalizações adequadas, linguagem textual coerente, e uma separação mais evidente entre registo e reconstrução.

Quando a transparência falta, a responsabilidade não é apenas do autor do conteúdo. É também de quem decide o formato. Em televisão pública, a governança editorial deve antecipar como o público interpreta. Não basta estar certo: é preciso ser compreendido corretamente. Se o espectador pode concluir, razoavelmente, que está perante “imagem real” quando se trata de “imagem recriada”, então o problema está instalado, mesmo que a intenção não tenha sido enganadora.

O debate sobre CGI deveria, portanto, empurrar o setor para padrões de comunicação visual mais responsáveis. A estética deve servir a informação, não substituí-la. E a informação deve ser acompanhada de sinais que reduzam a ambiguidade.

A cultura de confiança não se decreta

A confiança pública constrói-se ao longo do tempo. Não nasce de decisões pontuais nem de respostas defensivas. Vive de consistência, de correções, de previsibilidade nos critérios e de uma postura de abertura perante dúvidas legítimas. Quando um cidadão apresenta uma queixa, está a exercer um direito de escrutínio. Que o regulador arquive pode ser juridicamente correto; ainda assim, é um momento que deveria estimular a reflexão do serviço público sobre como comunica, porque a democracia não funciona apenas com legalidade, funciona também com credibilidade.

Há um risco associado a este tipo de decisões: o de a instituição interpretar a arquivação como validação geral. Não é. Uma arquivação pode significar que não se verificou o que era necessário para seguir, mas não impede a necessidade de melhorar processos internos. Em termos de imagem, o custo de um erro pode ser maior do que o custo de uma cautela. E numa área como a visualização computacional, a cautela é frequentemente a escolha mais sensata.

O que Portugal deve exigir daqui para a frente

Sem inventar factos do caso específico, há princípios que podem ser defendidos de forma clara e útil para o futuro. Em primeiro lugar, transparência. Em segundo, coerência entre a narração e o que a imagem representa. Em terceiro, um padrão editorial que trate a ambiguidade como risco, não como detalhe. E, por fim, uma cultura de responsabilidade que veja o cidadão como alguém que merece facilidades para compreender, não como alguém que precisa de presumir que “há sempre mais” do que aquilo que foi exibido.

Portugal é um país em que a televisão pública tem peso simbólico. Por isso, cada decisão do regulador e cada episódio mediático deve ser lido como parte de uma conversa maior: como garantir que a tecnologia alarga a capacidade de explicar, e não reduz a capacidade de perceber. Se a RTP usa CGI, que o faça para esclarecer. E se utiliza para esclarecer, que o enquadre de modo a que o público nunca fique em dúvida sobre o estatuto do que está a ver.

O arquivamento da queixa pode, portanto, não significar uma derrota nem uma vitória moral. Significa, sobretudo, que a conversa sobre rigor visual não terminou. E, num tempo em que a imagem pode ser fabricada com facilidade, o dever de transparência tem de ser mais exigente do que nunca. É isso que importa para Portugal: proteger a confiança democrática através de práticas que tornem a realidade mais compreensível, e nunca mais confusa.

  • Transparência visual para distinguir reconstrução de registo.
  • Coerência entre linguagem editorial e natureza da imagem.
  • Prevenção de ambiguidades que afetem a interpretação do público.
  • Responsabilização contínua, mesmo quando uma queixa é arquivada.

No fim, o que está em jogo não é apenas o CGI. É o direito do público a compreender sem ser levado a acreditar. E numa sociedade que precisa de informação sólida para decidir, essa é uma fronteira que não deve ser tratada como pormenor.

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Micael Amador

Especialista em Gestão e Estratégia, com foco na otimização de processos logísticos e eficiência financeira. Apaixonado por transformar dados complexos em decisões inteligentes, o Micael dedica-se a explorar como a Logística 4.0 e a economia inteligente podem alavancar negócios e poupanças pessoais. O seu objetivo é desmistificar o mercado e oferecer soluções práticas para gestores e consumidores.

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