Inteligência artificial “está a criar um enorme número de empregos”

Inteligência artificial “está a criar um enorme número de empregos”

Há um certo alarme silencioso no modo como, nos últimos tempos, se fala de inteligência artificial no trabalho: por um lado, promete-se transformação; por outro, vende-se a ideia de que, no fim, tudo acabará por favorecer os trabalhadores. “Está a criar um enorme número de empregos” é uma frase que soa a tranquilidade, como se o futuro viesse já embrulhado, pronto a entregar. Mas importa perguntar o que significa, na prática, “criar empregos” e, sobretudo, que tipo de empregos são esses, para quem e com que condições.

Eu próprio não tenho dificuldade em reconhecer o potencial do tema. A inteligência artificial pode acelerar tarefas, reduzir retrabalho, apoiar decisões e permitir que empresas reorganizem processos que hoje consomem tempo e esforço. Onde antes era necessário acumular rotinas repetitivas, pode passar a existir mais espaço para trabalho de qualidade: revisão, supervisão, melhoria contínua, contacto humano e criatividade. No entanto, reconhecer potencial não equivale a aceitar a narrativa fácil. Um mercado de trabalho que muda rapidamente raramente beneficia toda a gente da mesma forma, nem de forma imediata.

Emprego não é só posto de trabalho: é transição, compatibilidade e dignidade

Dizer que a tecnologia cria emprego não resolve o problema central. A questão não é apenas se há novas vagas, mas se essas vagas são acessíveis. Um emprego exige competências, contexto, tempo de aprendizagem e, frequentemente, estabilidade. Quando se afirma que a inteligência artificial está a abrir portas, devemos perguntar se as portas são para os trabalhadores que já existem ou se são, sobretudo, para perfis novos, recrutados de fora, com formação específica e redes profissionais já estabelecidas.

Também importa considerar que, mesmo quando surgem empregos, podem coexistir com o desaparecimento de outros. Em muitos setores, a transição é feita de forma desigual: algumas funções ficam mais valorizadas, outras perdem relevância, e há equipas inteiras que ficam num limbo entre o que sabem fazer e o que passarão a ser exigidas. A promessa de emprego líquido pode tranquilizar quem olha do exterior, mas a experiência concreta, no chão das empresas e das instituições, é frequentemente mais complexa.

Além disso, “emprego” não é apenas um cargo. É remuneração, horário, progressão, segurança e respeito. Se a criação de funções se fizer com precariedade, terceirização excessiva ou pressão permanente, então o benefício social fica diminuído. Não basta que existam contratos: é preciso que sejam bons, sustentáveis e compatíveis com uma vida digna.

O que faz a diferença: que tarefas desaparecem e quais se tornam mais valiosas

Em vez de discutir apenas o volume de emprego, vale a pena olhar para o desenho do trabalho. A inteligência artificial tende a automatizar padrões, acelerar pesquisa e apoiar a execução de tarefas que antes exigiam muita repetição. Quando isso acontece, os empregos não desaparecem em bloco; transformam-se em camadas. Normalmente, o trabalho de maior valor passa a ser o que envolve julgamento, responsabilidade, relação com o cliente, coordenação de equipas e capacidade de resolver problemas que não cabem em regras fixas.

Esta mudança, por si, não é necessariamente negativa. Pode ser estimulante para quem procura evolução e mais significado. Mas se a transição for mal conduzida, o que se vê é um aumento de tarefas “de retalho” para os trabalhadores: monitorizar, corrigir erros, validar outputs, lidar com exceções. Nesses casos, a tecnologia não vem como parceiro; chega como um mecanismo de controlo que promete eficiência, mas que pode gerar novas frustrações, sobretudo quando falta formação e clareza sobre prioridades.

É aqui que a narrativa de “muito emprego” pode ser enganadora. Uma coisa é existir procura por pessoas com competências em novas ferramentas. Outra é transformar o trabalho humano num apêndice de sistemas que trabalham mais rápido, deixando ao trabalhador a tarefa de reparar o que falha. A diferença entre emprego promissor e emprego degradado depende, acima de tudo, da forma como a organização decide usar a tecnologia e como prepara as pessoas para esse uso.

Por que o tema importa para Portugal

Portugal tem uma característica que torna este debate especialmente relevante: uma parte considerável da economia é composta por micro e pequenas empresas, setores de serviços com elevada componente relacional e um mercado de trabalho onde a progressão profissional, muitas vezes, depende de formação contínua e de oportunidades locais. Quando uma transformação tecnológica acontece sem rede de apoio, o impacto pode ser pesado, porque nem todos têm capacidade imediata para se adaptar.

Ao mesmo tempo, Portugal tem um tecido educativo e formativo capaz de responder, desde que haja orientação e compromisso. O país já demonstrou, em diferentes fases, capacidade de formar profissionais e atrair talento. O desafio é alinhar essa capacidade com necessidades reais. Não basta apostar em cursos “sobre” a tecnologia; é essencial aproximar a formação dos problemas concretos das empresas, dos serviços públicos e das instituições.

Há ainda uma dimensão territorial. Em regiões onde o mercado de trabalho já é limitado, uma mudança brusca pode reduzir ainda mais opções. Se a inteligência artificial concentrar oportunidades em polos específicos, quem está longe desses centros pode ficar com menos margem para requalificação. Por isso, quando se fala em empregos criados, convém perguntar onde surgem, como se acede e que mecanismos podem reduzir assimetrias.

Por fim, há uma questão cultural e social. Em Portugal, a confiança institucional e a segurança no emprego têm grande peso na forma como as pessoas encaram o futuro. Uma mensagem demasiado otimista, sem discussão séria sobre transição, pode alimentar expectativas irreais. O resultado pode ser frustração, polarização e desconfiança quando a realidade se impõe: existem oportunidades, mas não para todos, e não no mesmo ritmo.

Formação que vale a pena: prática, acompanhamento e tempo

A criação de emprego a partir de novas tecnologias deve ser acompanhada por formação que seja útil. Nem todo o treino é igual. Uma pessoa pode fazer um curso e, ainda assim, não conseguir aplicar o que aprendeu no seu contexto. Por isso, a formação precisa de ser prática e acompanhada, com exercícios próximos do trabalho real, feedback e tempo para consolidar competências.

Outra condição essencial é a previsibilidade. Muitos trabalhadores hesitam em investir em requalificação quando não sabem qual será o futuro da sua função. Se as empresas e as instituições forem claras sobre as mudanças esperadas, sobre os perfis necessários e sobre o calendário de adaptação, a requalificação ganha sentido. Caso contrário, torna-se uma aposta individual, e o risco recai sobre quem já está no limite.

Há também o tema do reconhecimento. Requalificar não é só aprender novas ferramentas; é também ver o valor profissional traduzido em progressão, remuneração e responsabilidade. Quando a organização trata a formação como mera adaptação, sem consequências claras, o incentivo desaparece. O país não pode desperdiçar talento; precisa de sistemas que transformem aprendizagem em carreira.

O papel das empresas e das instituições: preparar e não apenas implementar

Uma tecnologia introduzida sem preparação cria resistência e ansiedade. Por isso, as empresas e as instituições têm de ser protagonistas na gestão da mudança. Isso implica avaliar processos antes de automatizar, perceber onde existe margem real de melhoria e garantir que os trabalhadores são envolvidos desde o início, não apenas “informados” depois de decisões tomadas.

Quando a inteligência artificial é adotada, deve haver um desenho de responsabilidades: quem supervisiona, quem valida, quem decide quando algo corre mal. Sem isso, o trabalho humano fica sem fronteiras e os erros tornam-se difíceis de gerir. Além disso, deve existir transparência interna sobre limites e sobre a qualidade do que o sistema produz. A confiança não se decreta; constrói-se com controlo, monitorização e correção.

Também é importante pensar na escala. Em empresas pequenas, pode ser difícil manter equipas de suporte e formação contínua. Nesses casos, parcerias, serviços partilhados e mecanismos de apoio podem fazer diferença. Para Portugal, onde a dimensão média das organizações é uma variável relevante, este ponto não é secundário: a forma como o país organiza suporte técnico e formação pode determinar se a transição é equilibrada ou se aumenta desigualdades.

Trabalho com humanos no centro: confiança, ética e utilidade

Existe um modo de olhar para a tecnologia que a coloca sempre como ferramenta. Esse é um bom ponto de partida, mas é preciso ir mais longe: a tecnologia tem impacto cultural e ético. Se a inteligência artificial for usada para substituir relações humanas essenciais, o custo social pode exceder o ganho operacional. Há áreas em que a presença humana é insubstituível: acompanhamento, negociação, atendimento sensível, cuidado. Mesmo quando a tecnologia ajuda, o trabalho do humano continua a ser decisivo.

Em contrapartida, se a inteligência artificial for empregue para tornar o trabalho mais coerente e previsível, para reduzir tarefas burocráticas e para libertar tempo para melhor qualidade, então é mais provável que se criem condições para emprego sustentável. O ponto central é a utilidade: para que serve, quem beneficia e que problemas resolve de forma responsável.

É aqui que o debate sobre “enorme número de empregos” deve ser colocado em perspectiva. Uma sociedade não deve avaliar apenas a quantidade de vagas; deve avaliar se essas vagas correspondem a necessidades reais, se são sustentadas por investimento em competências e se contribuem para uma economia que se torna mais produtiva sem se tornar mais injusta.

O futuro não se prevê com slogans

Num tema como este, slogans ajudam a mobilizar conversas, mas não substituem decisões. “Está a criar um enorme número de empregos” pode ser verdade em sentido amplo, mas a verdade útil é outra: quem é chamado a ocupar esses empregos, como se prepara a transição e que garantias existem para que a mudança não se faça à custa dos mais vulneráveis.

Em Portugal, a resposta deve ser pragmática e exigente. Exige que se criem pontes entre tecnologia e formação, que se invista em adaptação do trabalho e que se assegure que o emprego não é apenas novo, mas também digno. Exige ainda que se olhe para o impacto territorial e para a realidade das pequenas organizações, onde muitas vezes as margens para falhar são reduzidas.

No fim, a questão que devemos colocar não é apenas se a inteligência artificial cria empregos, mas que tipo de sociedade e que tipo de trabalho queremos que emerjam dessa transformação. Se a resposta for apenas “emprego” enquanto número, ficamos cegos. Se a resposta for “emprego com competências, com respeito e com futuro”, aí sim o tema deixa de ser uma promessa vaga e passa a ser um projeto coletivo.

Portugal merece uma discussão séria. Não para negar oportunidades, mas para as enquadrar. Porque, quando o futuro chega depressa, quem protege o presente são as escolhas que se fazem agora: formação relevante, organização do trabalho, responsabilidade clara e compromisso real com as pessoas.

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Micael Amador

Especialista em Gestão e Estratégia, com foco na otimização de processos logísticos e eficiência financeira. Apaixonado por transformar dados complexos em decisões inteligentes, o Micael dedica-se a explorar como a Logística 4.0 e a economia inteligente podem alavancar negócios e poupanças pessoais. O seu objetivo é desmistificar o mercado e oferecer soluções práticas para gestores e consumidores.

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