Maiores de 60 ainda estão céticos sobre IA, diz estudo da EY
Há temas que entram na conversa pública com força e logo se transformam em barulho. A inteligência artificial é um desses temas. Em pouco tempo, deixou de ser uma ferramenta distante e passou a ser um assunto do dia a dia: para uns, promessa de eficiência e de novas oportunidades; para outros, ameaça ao emprego, à privacidade e à própria capacidade de decidir em consciência. O título que hoje nos serve de ponto de partida aponta para um sinal importante: entre os maiores de 60 anos persiste o ceticismo. E, goste-se ou não da palavra, vale a pena levá-la a sério. Ceticismo não é ignorância; é experiência acumulada, é memória de promessas anteriores e é, muitas vezes, uma intuição sobre o que pode dar para o torto.
Como sociedade, tendemos a confundir mudança com velocidade. A tecnologia acelera, as narrativas aceleram também, e quem está mais habituado a ritmos mais lentos sente dificuldade em acompanhar. Mas o ceticismo dos mais velhos não deve ser tratado como obstáculo a ultrapassar. Deve ser tratado como um convite ao diálogo e à responsabilidade. Se não quisermos que a discussão se converta numa espécie de guerra geracional, precisamos de perguntar: por que razão tantas pessoas, com uma vida inteira de trabalho e aprendizagem atrás, olham para esta transformação com cautela?
O ceticismo como resposta a experiências reais
Quem tem mais de 60 anos viveu mudanças profundas. Houve reestruturações, reconversões, novas formas de trabalhar e de medir desempenho. Houve também, em muitos casos, a sensação de que a decisão vinha de fora e que a adaptação era exigida ao indivíduo, sem que a proteção fosse equivalente. É compreensível que o cérebro social guarde essas marcas. Quando algo novo surge com promessas de “revolução” e com a promessa implícita de que “quem não acompanhar fica para trás”, a primeira reação não é entusiasmo; é prudência.
Além disso, há um elemento emocional que raramente se reconhece: confiança. Confiança é algo que se constrói com tempo e com repetição de resultados. A tecnologia atual, pelo menos em muitos domínios, não dá ainda essa estabilidade. Mesmo quando funciona, nem sempre é transparente sobre como chega às conclusões. Ora, para quem já passou por enganos, por fraudes disfarçadas de inovação e por decisões tomadas sem explicação convincente, exigir provas e clareza é mais do que uma preferência: é uma forma de se proteger.
Não é só sobre tecnologia; é sobre controlo
A discussão sobre IA costuma ficar presa a termos técnicos, a casos de uso e à ideia de produtividade. Mas o que está em jogo, sobretudo para os mais céticos, é outra coisa: controlo. Quem define os critérios? Quem valida os resultados? O que acontece quando há erro? E quem responde quando a decisão afeta o acesso a um serviço, a uma oportunidade ou a uma avaliação que muda a vida de alguém?
Em Portugal, estes receios fazem sentido num país em que o Estado, as empresas e as estruturas locais se apoiam, com frequência, em relações de proximidade e em processos em que a palavra final deve ser compreensível. Se a automação começa a decidir sem que o cidadão consiga perceber o porquê, a experiência deixa de ser apenas “uma melhoria” e passa a ser “um afastamento”. E afastamento, em termos sociais, é sempre perigoso.
Há também uma dimensão cultural. Uma parte da população mais velha não cresceu a lidar com algoritmos como se fossem parte natural do quotidiano. Para muitos, a ideia de que sistemas podem prever preferências, influenciar escolhas ou orientar a informação que chega ao utilizador soa a manipulação. Mesmo que nem sempre o seja, a sensação de perda de autonomia é suficiente para manter o distanciamento.
Porque este tema importa para Portugal
Portugal enfrenta desafios demográficos e sociais que tornam a inclusão tecnológica particularmente urgente. Temos uma população que envelhece, uma rede de serviços em que a literacia digital não é homogénea e um mercado de trabalho com diferenças marcadas de qualificações. Se a IA passar a ser uma “camada” sobre os serviços, quem não estiver confiante ou capaz de a usar pode ficar em desvantagem. E essa desvantagem não é apenas económica; é também cívica. Acesso a informação, a procedimentos e a direitos pode tornar-se mais difícil quando o desenho dos serviços presume competências que nem toda a gente tem.
O ponto decisivo é este: não basta introduzir tecnologia, é preciso garantir que a tecnologia reduz barreiras, em vez de as substituir por novas. Se não o fizermos, o ceticismo transformar-se-á em exclusão. E exclusão, num país pequeno, tende a concentrar-se em certas regiões, em certos grupos e em certas trajetórias. O resultado pode ser um fosso maior entre quem se adapta facilmente e quem já luta com outras dificuldades.
Ao mesmo tempo, há uma oportunidade. O ceticismo pode ser convertido em participação. Em Portugal, onde a coesão social é um valor frequentemente invocado, faz sentido criar condições para que quem tem dúvidas não seja apenas “convidado” a aceitar, mas sim chamado a compreender e a contribuir para que os sistemas sejam úteis e justos.
Produtividade não pode ser sinónimo de substituição
Uma das mensagens mais repetidas sobre IA é a promessa de eficiência. Ora, eficiência é boa, desde que não seja obtida à custa de desorganização, precarização ou desvalorização de competências. Para quem está a poucos anos da reforma ou que viu carreiras reconfiguradas por ciclos económicos, a pergunta é direta: “Isto vai substituir-me? Vai tornar o meu trabalho irrelevante? Vai reduzir a necessidade de experiência humana?”
Há uma diferença importante entre automatizar tarefas e automatizar decisões. A automatização de tarefas pode aliviar cargas e tornar o trabalho mais seguro e organizado. A automatização de decisões, sobretudo quando envolve avaliação de pessoas, risco reputacional ou critérios sensíveis, tem de ser acompanhada por responsabilidade clara. Em muitos contextos, o que falta não é tecnologia; é governança.
Em Portugal, este debate toca setores concretos: saúde, serviços sociais, banca, administração pública, comércio, formação profissional e até áreas mais tradicionais onde o contacto humano continua a ser decisivo. Se a IA for tratada apenas como motor de redução de custos, haverá risco de empobrecer o serviço. Se for tratada como apoio a profissionais e como ferramenta para melhorar qualidade e acessibilidade, pode ganhar legitimidade.
Leitura crítica: o antídoto para a desconfiança cega
O ceticismo pode ser uma porta para um pensamento mais exigente. Em vez de rejeitar tudo, o cidadão pode aprender a distinguir entre o que é útil, o que é opaco e o que pode ser enganador. E aqui entra uma questão que deve ser vista como oportunidade de política pública e estratégia empresarial: educação para a literacia digital aplicada, não em formato abstrato, mas em situações reais.
Não se trata de ensinar “a tecnologia”, mas de ensinar como avaliar. Por exemplo: compreender que nem tudo o que é gerado automaticamente é necessariamente correto; reconhecer sinais de manipulação em conteúdos; saber pedir explicações; saber quando recorrer a um humano; saber proteger dados e confirmar informação por canais fiáveis. Para quem tem mais de 60 anos, esta abordagem é particularmente relevante, porque reduz o medo do desconhecido e substitui “sensação de ameaça” por “procedimento de verificação”.
Se a aprendizagem for feita com respeito, sem condescendência, a desconfiança pode tornar-se prudência informada. E uma prudência informada é preferível a uma desistência silenciosa.
O papel das empresas e do Estado: confiança não se decreta
Há um ponto que muitos discursos ignoram: confiança não se comunica apenas com slogans. Faz-se com transparência, com consistência e com mecanismos de reparação. Se uma instituição usa IA para responder a pedidos de clientes, deve assegurar que existe via humana quando há problema. Se usa sistemas para gerir processos, deve explicar critérios, pelo menos no essencial, de modo a que o cidadão perceba o que foi considerado e porquê.
Em Portugal, onde a proximidade pode ser um diferencial competitivo e social, a experiência do utilizador deve ser desenhada com sensibilidade. Um serviço que “funciona” no plano técnico mas que deixa a pessoa sem resposta, sem explicação e sem alternativa é um serviço que falha. E falha tanto mais quanto o público é idoso e tem menos margem para insistir ou navegar em canais digitais.
O Estado tem também um papel que não deve ser relegado para segundo plano. Quando serviços públicos adotam ferramentas automatizadas, a exigência de acessibilidade e de clareza torna-se ainda maior. A administração não pode tratar o cidadão como utilizador “padrão”. Em vez disso, deve assumir a diversidade de competências e garantir percursos alternativos. O objetivo não é atrasar a modernização; é evitar que a modernização se torne injusta.
O risco de paternalismo: respeitar antes de “corrigir”
É frequente ver-se um discurso implícito: os mais velhos estão céticos porque “não percebem”. Subentende-se que, quando aprenderem, deixarão de duvidar. Este raciocínio é confortável, porque remove a responsabilidade do outro lado. Se a desconfiança é culpa do cidadão, não é preciso mudar processos. Mas não é assim. A responsabilidade é também de quem desenha e implementa as ferramentas.
Há tecnologia que pode ser difícil, mas há também tecnologia que é demasiado opaca. Há sistemas que exigem competências atuais, mas também há opções de design que poderiam ser mais simples. Se queremos reduzir o fosso de confiança, o caminho começa por respeitar as preocupações e responder com factos verificáveis, com procedimentos claros e com garantias de proteção.
Um exemplo simples: quando uma pessoa solicita um serviço e recebe uma resposta automática, deve existir a possibilidade de perceber o que aconteceu. Não basta dizer “o sistema decidiu”. É necessário que haja um trilho de explicação e de contestação. E é necessário que esse trilho seja realmente acessível, não apenas teórico.
Conversas difíceis, mas necessárias
Falar de IA é falar de trabalho, de justiça e de futuro. O ceticismo dos maiores de 60 anos é um sinal de que o debate ainda não foi suficientemente traduzido para a vida real. Num país como Portugal, que precisa de aumentar produtividade sem perder coesão, é fundamental que esta conversa deixe de ser entre entusiastas e tecnófobos e se torne uma conversa entre cidadãos, instituições e empresas sobre impacto concreto.
Isso significa aceitar a possibilidade de limites, de erros e de correções. Significa também reconhecer que a adoção responsável não é apenas uma questão técnica; é uma questão ética e social. Se o tema importa para Portugal, é porque vai determinar como pessoas diferentes irão viver o futuro: com oportunidades ou com barreiras; com dignidade ou com dependência; com autonomia ou com submissão a sistemas que não se compreendem.
Conclusão: incluir é construir legitimidade
O ceticismo dos maiores de 60 anos, longe de ser um problema a eliminar, pode ser uma bússola. Mostra-nos onde estão as fricções: na confiança, no controlo e na clareza. Se Portugal quiser modernizar sem agravar desigualdades, deve transformar dúvidas em diálogo, e diálogo em melhorias concretas nos serviços e nos processos. A IA, como qualquer ferramenta poderosa, só será verdadeiramente útil quando servir pessoas e não quando as colocar diante de decisões opacas.
No fundo, trata-se de uma exigência simples: tecnologia que não respeita a pessoa não merece legitimidade. E se há algo que a geração dos mais velhos nos lembra, com a sua reserva e a sua prudência, é que o futuro se constrói com responsabilidade. Não com pressa. Não com promessas fáceis. Mas com explicação, proteção e inclusão real. Essa é a única forma de fazer com que a modernização não seja uma ameaça, mas uma oportunidade para todos.